sábado, 31 de outubro de 2009

making it personal


Coimbra, Portugal
2009

"Fabrico um elefante de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira tirado a velhos móveis talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão, de paina, de doçura.

A cola vai fixar suas orelhas pensas.
A tromba se enovela, é a parte mais feliz de sua arquitetura.

Mas há também as presas, dessa matéria pura que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza a espojar-se nos circos sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos, onde se deposita a parte do elefante mais fluida e permanente, alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante pronto para sair à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê em bichos e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente e frágil, que se abana e move lentamente a pele costurada onde há flores de pano e nuvens, alusões a um mundo mais poético onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante pela rua povoada, mas não o querem ver nem mesmo para rir da cauda que ameaça deixá-lo ir sozinho.

É todo graça, embora as pernas não ajudem e seu ventre balofo se arrisque a desabar ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância sua mínima vida, e não há cidade alma que se disponha a recolher em si desse corpo sensível a fugitiva imagem, o passo desastrado mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres e situações patéticas, de encontros ao luar no mais profundo oceano, sob a raiz das árvores ou no seio das conchas, de luzes que não cegam e brilham através dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai sem esmagar as plantas no campo de batalha, à procura de sítios, segredos, episódios não contados em livro, de que apenas o vento, as folhas, a formiga reconhecem o talhe, mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a paz das cortinas à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite volta meu elefante, mas volta fatigado, as patas vacilantes se desmancham no pó.
Ele não encontrou o de que carecia, o de que carecemos, eu e meu elefante, em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa, caiu-lhe o vasto engenho como simples papel.
A cola se dissolve e todo o seu conteúdo de perdão, de carícia, de pluma, de algodão, jorra sobre o tapete, qual muito desmontado.

Amanhã recomeço."
O Elefante, Carlos Drummond de Andrade

[a fotografia que faltava]

domingo, 25 de outubro de 2009

sete palmos


Alentejo, Portugal
2009

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos."
David Mourão Ferreira

[é outono]

sábado, 17 de outubro de 2009

snow white


Raposeira-Vila do Bispo, Portugal
2009

[são de comer...]

sábado, 10 de outubro de 2009

selfmade me #3


Foz do Arelho, Portugal
2009

"Eu tenho uma espécie de dever, de dever de sonhar,
de sonhar sempre,
pois sendo mais do que
um espectador de mim mesmo,
Eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
E assim me construo a ouro e sedas,
em salas supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis."
Bernardo Soares, Livro do Desassossego

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

where?


São Martinho do Porto, Portugal
2009

"Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?"

Eugénio de Andrade

domingo, 27 de setembro de 2009

ai portugal, portugal.......


Lisboa, Portugal
2009

(leia-se nas reticências o dia de hoje, como se quiser)
(escrevo eu, cheia de moral, apesar de não ter podido votar...)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

disco


Foz do Arelho, Portugal
2009


domingo, 20 de setembro de 2009

the lost sheep


Raposeira - Vila do Bispo, Portugal
2009




segunda-feira, 14 de setembro de 2009

and now for something completely different


Raposeira - Vila do Bispo, Portugal
2009

movimento, para variar

sábado, 12 de setembro de 2009

where's my life? #2


Coimbra, Portugal
2009


"Cada um sabe dos gostos que tem
Suas escolhas, suas curas
Seus jardins
De que adianta a espera de alguém?
O mundo todo reside
Dentro, em mim

Cada um pode com a força que tem
Na leveza e na doçura
De ser feliz."
Onde ir, Vanessa da Mata

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

hold me


Parque Manuel António, Costa Rica
2008

saudade é um pouco como fome.
só passa quando se come a presença.
Clarice Lispector

domingo, 6 de setembro de 2009

que bem que se está no campo... #2


Brejão - Alentejo, Portugal
2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

take a ride


Eléctrico 28 - Lisboa, Portugal
2009

sábado, 29 de agosto de 2009

sempre


Coimbra, Portugal
2009

"Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens."
Vinicius de Moraes, O Haver



nada é perfeito

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

lembra-me um sonho lindo


Praia do Castelejo - Algarve, Portugal
2009


[tentativa musical #14]

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

if I was little...


Raposeira - Algarve, Portugal
2009

os sapatos da Luizinha,
para cortar o azul

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

sunny grapes


Praia de Beliche - Algarve, Portugal
2009

terça-feira, 18 de agosto de 2009

indian railways



Índia
2007

domingo, 16 de agosto de 2009

o essencial é invisível aos olhos
[considerações acerca da responsabilidade]


Rishikesh, Índia
2007


E então voltou para a beira da raposa e disse:
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível aos olhos...
- O essencial é invisível aos olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que a tornou tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho

terça-feira, 11 de agosto de 2009

barquinhos de papel


Praia de Beliche - Algarve, Portugal
2009



[tentativa musical #13]

mais informo que estão em actualização os links musicais deste blog: procurar por tag música

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